Como cultivar uma Atenção Slow neste mundo Fast

Por Malone Rodrigues*



Acorda, olha para o telemóvel, toma banho e segue para o pequeno almoço. Durante as primeiras horas do dia, já começa a planear as suas atividades e compromissos. Online ou presencial, tanto faz – entramos no fluxo de ações que denominamos de “piloto automático” – mas calma, ele não é o vilão. Pense comigo: o nosso cérebro gasta muita energia para aprender algo. Lembre-se de quando começou a aprender a ler, conduzir ou andar de bicicleta. Após a aprendizagem destas e tantas outras atividades, o nosso sistema cognitivo memoriza, e na aproxima vez, vai agir "em modo piloto automático”, pois assim, ele vai gastar menos energia com essas ações no futuro.

O problema, é que na nossa forma de vida contemporânea, acabamos por criar uma rotina do piloto automático. Por vezes, o piloto automático e a rotina transformam-se em vilões e acabamos por entrar num processo de exaustão ou até mesmo uma crise existencial. Pesquisas cientificas estimam que o nosso cérebro receba 5 vezes mais informações por dia do que há 40 anos. Com a Pandemia esse quadro foi agravado, pois agora os nossos papéis pessoais, familiares e profissionais precisam coexistir num único espaço. E se não bastasse, passamos o dia diante de um ecrã.


Então, o que podemos fazer?



(Re)Carregar as energias


Estudos científicos têm mostrado que pausas atencionais e o cultivo de momentos de silêncio são remédios naturais para ajudar a enfrentar situações desafiantes. Encontramos exercícios de cultivo da atenção e do silêncio dentro das mais diversas práticas de meditações. Segundo uma pesquisa elaborada pelo departamento de psicologia da Universidade Federal do Paraná, que analisou o Bem-Estar Subjetivo (BES) e práticas de meditação, foi evidenciado que as práticas de meditação possuem efeitos sobre o BES dos indivíduos.


Apresento 2 sugestões práticas.


1. Pausas atencionais



Pausas atencionais são diferentes daquele momento relax. Pausa atencional é um exercício de meditação, em que o praticante busca um momento de quietude e imersão silenciosa no presente. Busca-se um estado de consciência na respiração, conduzindo sua atenção para a mesma. Pode optar por prestar atenção ao subir e descer da sua barriga ou às sensações subtis nas narinas (por exemplo, a sensação de frio ou calor do ar nas narinas). Esta prática pode ser feita entre um a três minutos. O segredo é a quantidade de vezes que pratica. A minha sugestão é que a realize no final de cada uma hora.



2. Momentos de silêncio




O silêncio é um estado de espírito bem como uma profunda atividade de amor. Caminhar de forma progressiva na escola do silêncio pede que estejamos sintonizados com o nosso eu mais íntimo. Esse percurso é difícil, mas possível. Os místicos chamavam de ascetismo do silêncio. Já para médica e pedagoga, Maria Montessori, que elaborou o método Montessori, a prática do silêncio é descrita como um exercício sensorial, individual e coletivo, que “educa” os ouvidos[1].


O professor Ramesh Manocha, da Sydney Medical School, na Austrália tem-se dedicado a estudar como o silêncio pode contribuir para o bem-estar. No seu best-seller Silence Your Mind, ele explica como apenas 10 a 15 minutos de práticas de silêncio por dia podem auxiliar na saúde e bem-estar. O Dr. Ramesh Manocha lidera uma pesquisa a nível mundial sobre os impactos positivos da experiência do silêncio mental.


Mas como fazer silêncio?


O silêncio faz parte da natureza humana. Cultivar o silêncio não é tanto sobre ausência de sons e ruídos, mas sim de um estado mental. Podemos cultivar o silêncio estimulando os nossos 5 sentidos.

Sugiro que escolha um momento oportuno, no qual não seja interrompido. Desligue todos os aparelhos eletrónicos como telemóveis ou relógios inteligentes. E reserve um chá ou um copo de água.

Nesta técnica, comece por identificar 5 coisas que observa ao seu redor. Olhe, contemple com calma os detalhes. Depois escolha 4 coisas que pode tocar. Faça movimentos lentos e calmos. Em seguida, pare e busque escutar e reconhecer 3 coisas. Depois, busque 2 coisas que você pode cheirar e por último, permita-se sentar e degustar o seu chá ou o copo de agua de uma forma calma e silenciosa. Repita esse processo quantas vezes forem necessárias.


[1] MONTESSORI, M. Pedagogia Científica: a descoberta da criança. São Paulo: Flamboyant, 1965.







Malone Rodrigues *


Idealizador da Meditação Slow. Bacharel em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul / Brasil. Tem experiência de estudo de teologia na Escola Superior de Teologia e Espiritualidade Franciscana (ESTEF) é pós-graduado em Psicologia Positiva e ciência do bem-estar. Atualmente, é graduando em Psicologia (PUCRS). É Instrutor de Meditação pela Universidade de Santa Cruz do Sul (UNISC). Trabalha na Pró-Reitoria de Identidade Institucional da PUCRS liderando o projeto de Meditação e Cultivo da Interioridade. Também é professor na especialização de Mindfulness e Espiritualidade da Faculdades EST em São Leopoldo. É membro da Comunidade Mundial de Meditação e Cristã.



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